

Travessias em Negrito


Juventude negra trans e os desafios da sexualidade em contextos de violência
Por Geo Lopes
Aos 22 anos, Sarah* vive sua trajetória como travesti negra e estudante de Serviço Social, marcada por desafios que moldaram sua relação com o próprio corpo e a sexualidade. Desde muito jovem, não encontrou respostas na escola, nem em casa, nem nos serviços de saúde que deveria acessar. No lugar do cuidado, vieram os silêncios, os olhares atravessados e as perguntas sem acolhimento. “Por muito tempo, o sexo foi a única forma que eu encontrei de não me sentir tão sozinha”, conta. “Não era sobre prazer ou cuidado, era sobre preencher algum tipo de vazio… Só hoje eu consigo pensar no sexo de uma maneira mais saudável, com respeito por mim mesma e pelos meus limites.”
Falar de sexualidade segura e afirmativa para a juventude exige ir além das noções tradicionais de prevenção. Trata-se de reconhecer que gênero, raça e sexualidade se entrecruzam de forma profunda. No Brasil, essa realidade se inscreve em um contexto ainda mais violento. O Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), publicado em 2025 com dados referentes a 2024, registra 122 assassinatos de pessoas trans no país.
Embora represente uma redução em relação ao ano anterior, o número mantém o Brasil, pelo décimo sexto ano consecutivo, como o país que mais mata pessoas trans no mundo. Esses assassinatos não ocorrem ao acaso. O dossiê evidencia que a maioria esmagadora das vítimas são travestis e mulheres trans negras, jovens, com baixa escolaridade e em situação de vulnerabilidade social. Muitas exerciam o trabalho sexual, não como escolha livre, mas como resultado da exclusão sistemática do mercado formal de trabalho.
A violência descrita no dossiê não se limita à morte física. Ela atravessa a vida cotidiana de pessoas trans e travestis por meio de agressões verbais, violência psicológica, discriminação institucional e negação de direitos básicos. A ANTRA aponta que a transfobia opera como uma política informal de morte, sustentada por um Estado que falha em proteger essas vidas e por uma sociedade que naturaliza a exclusão. A vítima mais jovem registrada em 2024 tinha apenas 15 anos, revelando como essa violência atinge também adolescentes, que ainda estão construindo sua relação com o corpo, o desejo e a identidade.
*Nome fictício utilizado para preservar a identidade da personagem.
Confira o Dossiê completo: https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2025/01/dossie-antra-2025.pdf

O contexto de violência e exclusão afeta diretamente a forma como jovens negros trans e não bináries vivenciam a sexualidade. O receio de agressões, rejeição ou exposição restringe o acesso a informações confiáveis, a serviços de saúde adequados e a espaços de prazer seguros. A ausência de abordagens sobre diversidade de gênero nas escolas, o desrespeito a nomes sociais e identidades nos serviços de saúde e campanhas de prevenção que ignoram corpos dissidentes contribuem para que a sexualidade seja tratada como risco, e não como direito. Esse cenário produz um ciclo de vulnerabilidade, no qual muitos jovens acabam aprendendo sozinhos sobre sexo, consentimento e cuidado, frequentemente em contextos marcados por insegurança, solidão ou práticas de risco.
A ausência de espaços seguros e de educação sexual inclusiva impede que questionamentos legítimos sobre desejo e limites sejam acompanhados por orientação adequada, reforçando sentimentos de culpa, vergonha e insegurança. Em consequência, em vez de a sexualidade se constituir como ferramenta de autonomia e autocuidado, torna-se território de exposição e risco, em que a busca por prazer é frequentemente atravessada pelo medo e pela necessidade de proteção constante.
Estudos acadêmicos sobre saúde sexual de mulheres transexuais e travestis negras no Brasil mostram que a vulnerabilidade começa cedo na vida dessas populações. Uma pesquisa publicada em 2021, no Boletim do Instituto de Saúde (BIS), revelou que a primeira experiência sexual ocorreu antes dos 17 anos para 60% das travestis e 30% das mulheres transexuais negras. Muitos desses episódios aconteceram em contextos marcados por violência ou coerção.
A mesma pesquisa aponta que uma parcela significativa dessas mulheres sofreu violência sexual ainda na infância ou adolescência, com 42,9% das transexuais e 50% das travestis relatando episódios desse tipo. Esses números evidenciam não apenas a frequência do problema, mas também a forma como a marginalização social, o racismo e a transfobia estruturam o cotidiano de jovens e adultas trans negras.
Nesse contexto de violência e exclusão, o livro O nascimento de Joicy, da jornalista e professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Fabiana Moraes, contribui para o debate ao lançar luz sobre vivências trans frequentemente invisibilizadas. A obra é fruto de uma reportagem publicada originalmente em 2011 e posteriormente ampliada em formato de livro-reportagem.
Nela, a autora acompanha a trajetória de Joicy, uma mulher transexual pernambucana que sai do agreste em busca da cirurgia de redesignação sexual no sistema público de saúde, que considera fundamental para a afirmação de sua identidade. Ao longo do relato, a narrativa vai além do procedimento médico e expõe aspectos como solidão, violência simbólica e as disputas em torno do corpo e da subjetividade.
A trajetória de Joicy dialoga com experiências vividas por muitos jovens trans negros na atualidade. Ao tornar visíveis histórias frequentemente apagadas, o livro evidencia que a afirmação da identidade está diretamente relacionada ao reconhecimento social e ao acesso a políticas e recursos que garantam dignidade e autonomia. O relato amplia a compreensão sobre saúde e sexualidade, ao indicar que a proteção não se limita à prevenção de infecções sexualmente transmissíveis ou gravidez indesejada, mas inclui o respeito aos corpos, às identidades e às condições necessárias para uma vida segura e digna.