


Papo de Calcinha
De papo na biblioteca, visitas de postos de saúde, intervenções dos professores até o silêncio: as nuances das iniciativas preventivas sobre sexualidade nas escolas públicas de Fortaleza
Por Cailana Fernandes
Um bolinho, chá de camomila, erva-doce ou melissa, cartolinas, e três meninas dispostas a discutir diversas nuances sobre sexualidade. Foi assim que Maria Grazielly Viana, 18 anos, recém-egressa do ensino médio da Escola de Ensino Médio Governador Flávio Marcílio, no bairro Pirambu, idealizou o projeto Papo de Calcinha, uma conversa descontraída voltada à educação sexual.
Desenvolvido em parceria com outras duas colegas, o projeto teve como foco pessoas com útero, recorte que, segundo ela, partiu da própria vivência das organizadoras. “Como somos pessoas com útero, é o que a gente mais entende”, explica em entrevista.
A proposta surgiu a partir do programa STEMM, da Secretaria de Educação do Ceará (Seduc), que estimula estudantes a desenvolverem ações ligadas às áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia, Matemática e Medicina.
Dentro desse contexto, o trabalho precisava ser de baixo custo e facilmente reproduzível no ambiente escolar. A ideia de uma roda de conversa sobre educação sexual começou a tomar forma a partir de um pedido da professora Nathane Freire, de Biologia, para que as meninas participassem do programa.
Além disso, a ausência do tema ao longo da trajetória escolar de Grazielly foi um dos principais motivadores. “Eu estudei em seis escolas e nunca tive uma aula sobre educação sexual. Eu esperava que os professores de Ciências explicassem alguma coisa, mas eles sempre fugiam do assunto. Quando alguns tocavam [na questão], virava chacota”, relata.
Por conta disso, a estudante chegou a cogitar uma atividade voltada aos meninos, que chamou de “papo de cuecas”, pois percebia que a discussão deveria ser difundida entre todos os jovens da escola, sem exceções. Porém, ela desistiu ao perceber que os garotos não levaram a sugestão a sério.

Cartaz de divulgação do Papo de Calcinha / Arquivo Pessoal
Por outro lado, a atividade com as meninas funcionou bem. Para criar um ambiente acolhedor, o encontro foi pensado de forma simples: cartolinas, chá e uma conversa conduzida de maneira tranquila. “Era para ser mais receptivo e confortável para as meninas”, explica a aluna.
O Papo de Calcinha aconteceu em agosto de 2025, na biblioteca da escola. Como o espaço era reduzido, a atividade precisou limitar o número de participantes, mas superou as expectativas de Grazielly por conta da forte adesão.


Mais de 20 meninas compareceram ao encontro naquela manhã / Arquivo Pessoal
Durante cerca de uma hora e meia, as participantes compartilharam experiências sobre a primeira menstruação, relacionamentos afetivos, sexualidade e autonomia feminina. A proximidade das provas finais e do vestibular e a falta de engajamento da gestão escolar impediram a realização de novos encontros, mas, mesmo com apenas uma edição, o projeto foi bem avaliado tanto pelas alunas quanto pelo corpo docente. Segundo a estudante, havia uma grande demanda dos jovens por esse tipo de atividade.
O contato direto com as alunas revelou uma realidade que surpreendeu Grazielly. “Eu descobri que a maioria tinha vida sexual ativa e não sabia nem o básico. Elas perguntavam coisas e eu ficava pensando: vocês realmente estão transando e não sabem sobre isso? Fiquei assustada”, afirma.
Em entrevista, a estudante criticou a ausência de políticas efetivas da Seduc dentro das escolas. De acordo com ela, embora existam programas institucionais, a aplicação fica a critério das unidades de ensino. “Na prática, eu não vi nenhuma campanha, ação da Seduc ou da direção da escola. Eu acho que as próprias escolas não se interessam, têm vergonha de falar”, avalia.
Em nota, a Secretaria da Educação informou que orienta anualmente a realização de atividades nas escolas durante a Semana Nacional de Prevenção à Gravidez na Adolescência, instituída pela Lei nº 13.798/2019, com início em 1º de fevereiro. O órgão destacou que as ações têm como objetivo disseminar informações preventivas e educativas.
A Seduc também destaca o desenvolvimento de estratégias de acolhimento contínuo, voltadas à comunidade escolar, incluindo alunas gestantes ou que retornam às aulas após o parto.
Porém, Grazielly reforça que a vivência dentro da escola não reflete essas diretrizes. Para ela, o sucesso do Papo de Calcinha evidencia não apenas a demanda das estudantes por informação, mas também a urgência de uma política de educação sexual estruturada e obrigatória no ambiente escolar.
“Eu acho que é aquela coisa, as pessoas têm vergonha de conversar sobre isso. As pessoas não querem conversar sobre isso, então elas meio que jogam assim e faz quem quer. Cada um por si”, avaliou.

Projetos institucionais da rede estadual
A professora de Língua Portuguesa Yana Lucena, da Escola de Ensino Fundamental e Médio (EEFM) Doutor Gentil Barreira, no Conjunto Ceará, afirma que os temas relacionados à sexualidade ainda são tratados de forma pontual no ambiente escolar, geralmente por iniciativas isoladas de professores de Biologia. Conforme ela explicou, a escola não conta com programas preventivos sistemáticos e/ou recorrentes sobre o tema, embora possua mecanismos institucionais para lidar com situações de violência e violação de direitos.
Entre esses mecanismos, está a Comissão de Proteção e Prevenção à Violência contra a Criança e o Adolescente (CPPE), criada a partir da Lei Estadual nº 17.253/2020. Ela é composta pelo diretor, um professor e um funcionário da escola e atua no encaminhamento de casos suspeitos de abuso ou violência.
Yana relata ter tomado conhecimento de um episódio envolvendo suspeita de abuso por parte do padrasto de uma aluna. “A Comissão registra a situação e encaminha para o Conselho Tutelar. Foi assim que eu fiquei sabendo desse caso, que depois seguiu para a Comissão deliberar”, explica.
Em relação à gravidez na adolescência, a professora destaca que a escola adota um sistema de acompanhamento das alunas que entram em licença-maternidade. Nesse período, a coordenação pedagógica envia atividades para que sejam realizadas em casa e posteriormente devolvidas para avaliação. O objetivo é preservar o vínculo da estudante com a instituição e reforçar a expectativa de conclusão dos estudos, o que facilita o retorno após o período de resguardo.
Yana lembra o caso de um casal de estudantes que levava a filha bebê para a sala de aula diariamente. Como relata a professora, a situação era delicada. “A mãe, muitas vezes, não conseguia nem segurar o caderno, porque estava com a criança no colo”, relata. Embora os pais se revezassem nos cuidados, a presença do bebê chamava a atenção da turma e dos professores. O casal conseguiu concluir o primeiro ano do ensino médio, mesmo com as adversidades.
O relato da professora cruza com a nota da Seduc enviada à reportagem. A instituição informou que a rede pública estadual oferece estudos domiciliares às alunas em licença-maternidade, com a elaboração de um cronograma de conteúdos, atividades e avaliações, acompanhado pela gestão escolar e pelos professores.
Na avaliação de Lucena, a maioria das alunas que se afastam por licença-maternidade acaba retornando à escola justamente por conta desse acompanhamento pedagógico e da manutenção das notas durante o período de afastamento. “Existe esse vínculo, essa responsabilidade, entre a escola e a estudante para que ela prossiga nos estudos e consiga voltar”, alegou.
O órgão também destaca que, no retorno às aulas presenciais, a estudante pode se ausentar para amamentação e, se desejar, levar a criança à escola, que deve organizar um espaço adequado para esse fim. Por outro lado, aparentemente, o espaço adequado não existiu na Gentil Barreira.
A reportagem questionou a Seduc sobre a existência de dados oficiais referentes ao retorno escolar de meninas após a gravidez, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem.
A Seduc informou que lançou em 2023, em parceria com o Instituto Terre des Hommes, a cartilha “Se liga na Prevenção ao Abuso Sexual contra crianças e adolescentes”, com o objetivo de fortalecer essas ações na escola. Segundo a pasta, a estratégia continua em aplicação em unidades escolares da rede estadual.


Rede Municipal de Educação
Já Samuel Paz, professor de Biologia da Escola Municipal de Tempo Integral (EMTI) Professor Agerson Tabosa Pinto, falou à reportagem sobre as estratégias adotadas pela escola para a prevenção da violência e da gravidez na adolescência.
De início, o docente afirmou não conhecer o Programa PREVINE – Violência nas Escolas, não!, programa adotado pela Capital em 2025. De acordo com o Ministério Público do Ceará (MPCE), o Programa PREVINE tem como objetivo fortalecer a prevenção e o enfrentamento de diferentes formas de violência contra crianças e adolescentes no ambiente escolar, reconhecendo a escola como espaço estratégico para ações educativas, de acolhimento e de encaminhamento de casos de violação de direitos.
Lançado em janeiro de 2022 pelo MPCE, por meio do Centro de Apoio Operacional da Educação (CAOEDUC), o PREVINE foi transformado em programa em 2023. O órgão relata que, para 2025, estavam previstos dois projetos: o “Proteger e Prevenir”, voltado a escolas e municípios que ainda não implantaram as comissões, e o “Comissão em Ação”, destinado ao fortalecimento das estruturas já existentes.
Samuel destaca que a escola conta com uma Comissão de Proteção e Prevenção à Violência contra Crianças e Adolescentes, estrutura que o PREVINE busca implementar em todas as unidades da rede municipal. Segundo a Secretaria Municipal de Educação (SME), os membros da Comissão receberam capacitação híbrida acerca do programa.
Como adiantado pela professora Yana Lucena, essas comissões têm como função elaborar planos de prevenção, promover ações de sensibilização e formação, articular-se com a comunidade escolar e manter diálogo permanente com o Conselho Tutelar, garantindo a proteção das vítimas e evitando a revitimização.
A SME indicou que, a partir deste ano, será implantado o curso online assíncrono de sensibilização por meio de material elaborado em parceria com o Instituto Terre des Hommes e a formação ofertada pelo MPCE, por meio da Escola Superior do Ministério Público (ESMP).
No campo da saúde sexual e reprodutiva, Samuel afirma que a escola mantém parceria com um posto de saúde do bairro. “Nós temos uma parceria com o posto de saúde do Siqueira e somos atendidos com palestras voltadas para doenças sexualmente transmissíveis, gravidez na adolescência e métodos contraceptivos”, explica.
Conforme o professor, esses temas também fazem parte do conteúdo curricular. “A partir do oitavo ano do ensino fundamental, nas aulas de Ciências, trabalhamos gravidez na adolescência, métodos contraceptivos e reprodução sexuada.”
Além das aulas regulares, assuntos considerados sensíveis são abordados por meio de atividades específicas e eventos temáticos, como o Maio Laranja, dedicado ao enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes.
O professor ressalta ainda que a SME divulga anualmente um calendário com ações obrigatórias para as escolas. “Entre elas está a Semana de Prevenção da Gravidez na Adolescência, que em 2026 deve ocorrer em fevereiro”, afirma.
Segundo Samuel, embora exista a orientação institucional, a forma de execução das atividades fica a critério da escola e dos professores. “Como professor de Ciências, eu posso convidar alguém do posto de saúde ou outro profissional da área, ou então desenvolver uma atividade como uma sessão de cinema ou uma roda de conversa. Isso depende muito da iniciativa do professor e da gestão escolar”, conclui.
A iniciativa é amparada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e incentiva a inclusão de conteúdos sobre direitos humanos e prevenção da violência nos currículos escolares. No âmbito estadual, a Lei nº 17.253/2020 autorizou a criação das comissões de proteção nas escolas.
A revitimização ocorre quando, mesmo após o fim do ato violento, a vítima vivencia um sofrimento contínuo por conta dele. Como, por exemplo, sofrer constrangimentos por conta da violência, ter a denúncia questionada inúmeras vezes e, por conta disso, relembrar o trauma relatando-o mais de uma vez.
Além dos professores
Eduardo Alves, professor de Geografia da Escola Municipal de Tempo Integral (EMTI) Dom Antônio de Almeida Lustosa, localizada no bairro Granja Lisboa, acompanhou a execução do projeto universitário Promove, da Universidade Estadual do Ceará (UECE). A iniciativa foi voltada a estudantes do 7º ano e abordou temas como infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e métodos contraceptivos.
Segundo o professor, a atividade ocorreu em uma tarde, no formato de palestra interativa, com uso de materiais didáticos e espaço para diálogo com os alunos. Embora não tenha havido aplicação de testes ou avaliações formais, Eduardo relata que o engajamento foi perceptível, tendo a aprovação e o engajamento por parte dos jovens.


O Promove iniciou suas atividades em 2025 e atua nas EMTIs de Fortaleza / Arquivo Pessoal
Além do projeto universitário, o docente também acompanhou ações do Programa Saúde na Escola (PSE), realizadas em parceria com o posto de saúde da região. Profissionais da unidade promoveram ciclos de palestras sobre saúde bucal, saúde mental e violência, com intervenções que aconteciam de forma quase semanal ou, em alguns períodos, quinzenal. De acordo com Eduardo, o cronograma dessas atividades é elaborado conjuntamente pelo posto de saúde e representantes da escola.
Apesar da регiodicidade das ações, o professor destaca que o programa não foi executado integralmente. Ele cita, por exemplo, que o tema da saúde sexual e reprodutiva estava previsto no cronograma para o mês de agosto, mas a atividade acabou não sendo realizada. “Na correria do dia a dia escolar, a gente também não ficou em cima do posto para perguntar o que tinha acontecido”, explica.
Para Eduardo Alves, iniciativas como o Promove e o Programa Saúde na Escola são fundamentais para tratar assuntos que a rotina escolar nem sempre consegue aprofundar. Ele ressalta ainda que o objetivo dessas ações não é incentivar a iniciação sexual, mas promover informação e proteção. “Não é uma questão de estimular que eles pratiquem isso, mas de entender o que é uma situação de abuso que possa vir a acontecer com eles. É uma questão de segurança”, conclui.