

Para além das camisinhas

O que é saúde sexual e como o sexo tem relação com autocuidado e bem-estar?
Por Tais Lustosa
Quando falamos sobre “saúde sexual”, o que vem à sua mente?
É provável que você tenha pensado em prevenir Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), no uso de camisinhas durante as relações sexuais, em evitar uma gravidez precoce ou não planejada e, talvez, até no desempenho sexual.
De fato, todos esses aspectos fazem parte do conceito de saúde sexual. No entanto, reduzi-la apenas à prevenção de riscos é limitar um tema que, na prática, envolve muito mais. A saúde sexual diz respeito a um cuidado integral, que atravessa o corpo físico, a mente, as emoções e as relações interpessoais, impactando diretamente a forma como cada pessoa se percebe e se relaciona com o outro.
Segundo a psicóloga clínica e terapeuta sexual Zenilce Bruno, a saúde sexual “é entendida como um estado de bem-estar físico, mental, emocional e social relacionado à sexualidade e à reprodução”. Nesse sentido, compreender prazeres, direitos, autonomia e consentimento também é fundamental para manter uma vida sexual saudável. “Trata-se de uma dimensão integral da vida que conecta saúde, cidadania e qualidade das relações humanas”, completa a terapeuta.
Essa compreensão é reforçada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que destaca que ter uma vida sexual saudável significa poder vivê-la de forma segura, responsável e prazerosa, livre de discriminação, violência e preconceito. Trata-se de um direito humano básico e inalienável, que deve ser garantido a todas as pessoas, independente de gênero, orientação sexual, raça, classe social ou deficiência.
É nesse contexto que o Dia Mundial da Saúde Sexual, comemorado anualmente em 4 de setembro, ganha relevância. A data funciona como um convite para que esse cuidado não seja pontual, mas contínuo, presente em todas as fases da vida e integrado às políticas públicas de saúde, educação e assistência social.

Apesar dos avanços no debate público, em pleno século XXI, falar sobre sexo ainda é como “pisar em ovos”. A sociedade brasileira permanece marcada por um histórico de silenciamento, vergonha e moralização em torno da sexualidade. Esse tabu acompanha indivíduos desde a infância até a vida adulta, dificultando diálogos abertos, seguros e, sobretudo, informativos.
Paradoxalmente, enquanto o tema segue cercado por restrições no debate, cresce também o interesse e a busca por informações relacionadas à sexualidade. Esse movimento revela um desejo legítimo de autoconhecimento, de compreensão do próprio corpo e das próprias experiências, especialmente entre os jovens.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que a idade média da primeira relação sexual no Brasil foi de 17,3 anos. Entre jovens de 18 a 29 anos, esse início ocorre mais cedo, por volta dos 15,6 anos, enquanto pessoas com mais de 60 anos relataram ter iniciado a vida sexual, em média, aos 17,3 anos.
Outros dados que ajudam a compreender esse cenário são os do Censo do Sexo 2022, realizado pela Pantynova. A pesquisa aponta que 95% das pessoas entrevistadas acreditam que falar sobre sexo e sexualidade impacta positivamente a sociedade. Contudo, apenas 43% dos entrevistados afirmaram ter tido algum contato com educação sexual ao longo da vida.
Para o psicólogo e mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (Unifor), Hugo Nogueira, ainda há uma tendência de subestimar a juventude quando o assunto é sexualidade. “Os jovens já têm acesso à informação. Eles entram na internet, conversam com outros jovens e muitos já estão fazendo sexo, às vezes por escolha, às vezes contra a própria vontade”, afirma.
Esse ponto também é ressaltado por Marília Barreira, psicóloga clínica e professora universitária na Unifor. Segundo ela, diante da ausência de espaços seguros para diálogo, muitos jovens recorrem às redes sociais, como o TikTok, ou a amigos da mesma faixa etária para tirar dúvidas. O problema é que nem sempre essas fontes oferecem informações confiáveis ou contextualizadas. Para Marília, uma educação sexual consistente deveria ter base tanto nas instituições de ensino quanto dentro de casa.
Ao contrário do que sugere o senso comum, educação sexual não se resume a ensinar práticas sexuais. O foco inicial está na formação para o cuidado e a proteção: ensinar crianças e adolescentes sobre os limites do próprio corpo, noções de consentimento, respeito, identificação de toques inadequados e reconhecimento de situações de violência. Trata-se de oferecer ferramentas para que possam compreender o próprio corpo e estabelecer limites com segurança.
De acordo com o dicionário Priberam, o termo “tabu” refere-se a algo que não pode ser falado ou discutido, seja por uma origem religiosa, social ou cultural.
O sexo pode se referir tanto à relação sexual entre pessoas (o ato carnal) quanto às características biológicas, como a genitália de alguém.
A sexualidade, por sua vez, diz respeito aos desejos, afetos e sentimentos, além de englobar a orientação sexual e a identidade de gênero dos indivíduos.

Entre seus diversos benefícios, a educação sexual contribui diretamente para a prevenção de ISTs, para a redução da gravidez precoce e, sobretudo, para o desenvolvimento da autonomia e do senso crítico. Ela auxilia crianças, jovens e adultos a diferenciarem gestos de carinho e cuidado de toques invasivos, ajudando a identificar situações suspeitas que podem se configurar como abuso.
Para Zenilce Bruno, a falta de informação sobre saúde sexual não afeta apenas o corpo físico, mas compromete profundamente o bem-estar emocional. Além disso, de acordo com a terapeuta, esse é um problema coletivo, não somente individual.
A forma como aprendemos (ou não) sobre sexo e sexualidade impacta diretamente a autoestima, a relação com o próprio corpo e a capacidade de estabelecer vínculos saudáveis. Esse estigma também se reflete na saúde pública, perpetua desigualdades e limita o desenvolvimento pleno de jovens, uma vez que a sexualidade não se resume a fatores biológicos, mas envolve dimensões emocionais, sociais e culturais.
A ausência de informação adequada expõe jovens a situações de vulnerabilidade e, muitas vezes, os empurra para uma busca solitária por respostas, sem o apoio de adultos, profissionais ou instituições preparadas para acolhê-los. Falar em bem-estar sexual, nesse contexto, implica ir além da esfera íntima e considerar fatores estruturais, como desigualdades de gênero, diferentes orientações sexuais, questões raciais e de classe, além dos contextos sociais e culturais que atravessam cada grupo.
Atualmente psicólogo no Centro Estadual de Referência LGBT+ Thina Rodrigues, Hugo Nogueira relata que muitos jovens chegam ao serviço já com experiências sexuais marcadas por violência, abuso e até estupro. Diante desses casos, ele ressalta a importância de trabalhar um aspecto central da saúde sexual: a resiliência.
“Resiliência não é algo inato ou apenas subjetivo; ela é construída coletivamente. É a capacidade de buscar ajuda, aceitar ajuda e utilizar os recursos disponíveis”, explica. Para o público LGBTQIAPN+, esse processo é ainda mais fundamental, já que muitas dessas pessoas crescem em ambientes hostis à sua identidade. A partir da construção da resiliência, segundo Hugo, é possível desenvolver autonomia, independência e pertencimento. “Mesmo quando a pessoa não se encaixa nos padrões esperados pela sociedade, ela pode se reconhecer como parte dela”.
Debater saúde sexual, portanto, envolve discutir qualidade de vida, direitos, autonomia, dignidade e pertencimento. Significa compreender que o sexo, quando vivido com informação, respeito e consentimento, pode ser fonte de prazer, conexão e bem-estar, e não de medo, culpa ou violência. Ir além das camisinhas é reconhecer que a saúde sexual começa no diálogo, passa pela educação e se sustenta no cuidado coletivo.